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Século XIX · Brasil

Como se tratava a saúde no Brasil do século XIX

Tratar a saúde no Brasil do século XIX não significava percorrer um único caminho até o médico diplomado. Havia faculdades na Bahia e no Rio, santas casas, boticários, barbeiros…

A Escola, pintura de Almeida Júnior, século XIX. Interior de ensino no Brasil oitocentista, usado aqui como atmosfera de instituições e infância no período.
Almeida Júnior, Leitura, 1892. Domínio público via Wikimedia Commons.

Introdução

Tratar a saúde no Brasil do século XIX não significava percorrer um único caminho até o médico diplomado. Havia faculdades na Bahia e no Rio, santas casas, boticários, barbeiros sangradores, parteiras, rezadeiras, especialistas africanos e conhecimentos indígenas deslocados pelo cativeiro e pelo aldeamento. A escolha — quando havia escolha — dependia de cidade ou sertão, de cativeiro ou liberdade, de renda, de gênero e de religião.

Este guia descreve esse mosaico sem fundir as práticas numa “medicina popular” sem sujeito. As epidemias de febre amarela, varíola e cólera tornaram o debate médico visível nas cortes e nas câmaras. Sidney Chalhoub mostrou que cortiço, raça e teoria da doença se entrelaçavam na Corte. Fora do Rio, a documentação é mais rarefeita. Onde não há série de óbitos ou processo, a rotina de cura permanece parcialmente opaca.

Local e período

O século XIX brasileiro atravessa o período joanino, o Império e os primeiros anos da República. Em 1808 foram criados os cursos cirúrgicos que dariam origem às faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro. A Corte, depois Capital do Império, concentrou juntas de higiene, hospitais e imprensa médica. As províncias tinham médicos de partido, mas a cobertura era irregular. O interior e o sertão dependiam de percursos longos, de curadores leigos e de farmácias incompletas.

A escravidão legal durou até 1888. Qualquer história da saúde oitocentista que ignore o corpo cativo — trabalho forçado, castigo, dieta insuficiente, venda que rompia cuidado familiar — distorce o quadro. Depois da abolição, a precariedade sanitária urbana não cessou: Chalhoub acompanha o fio até as políticas de cortiço e vacina. Este texto privilegia o oitocentos, com menção pontual à virada do século quando a evidência contínua o exige.

Contexto histórico

A medicina diplomada no Brasil oitocentista debateu miasmas, contágio e, mais tarde, os primeiros ecos da bacteriologia. Chalhoub reconstruiu a polarização entre infeccionistas e contagionistas em torno da febre amarela e o estigma dos cortiços. A Academia Imperial de Medicina e os relatórios de higiene produziram um saber de Estado, voltado à Corte e aos portos. Isso não elimina a homeopatia, bem recebida em frações da elite, nem as boticas que vendiam preparados de origem europeia lado a lado com raízes locais.

Paralelamente, irmandades católicas negras e santas casas organizavam enterro, enfermagem e algum socorro. Práticas de origem africana — banhos, folhas, consulta espiritual — persistiram sob disfarce ou perseguição, conforme a cidade e a década. Conhecimentos indígenas de plantas circularam em farmácias e na cozinha do cativeiro, em geral desligados dos sistemas rituais de origem. Parteiras, muitas delas pretas e pardas, assistiam partos que os facultativos raramente acompanhavam nas camadas pobres. Gênero e cor organizavam quem podia tocar o corpo de quem.

A rotina em detalhe

Diante de uma febre, uma família da Corte podia chamar o médico da casa, enviar o criado à botica e, ao mesmo tempo, cumprir promessa a um santo. Uma família pobre do mesmo arrabalde recorria à vizinha conhecedora de folhas, ao barbeiro para uma sangria ou ao hospital da Santa Casa, temido como lugar de morrer. A sangria e os purgantes, herança da medicina humoral ainda ensinada, coexistiam com quinino para febres intermitentes e com vacinação antivariólica, esta última objeto de adesão e de recusa.

Mulheres escravizadas e libertas sustentavam o cuidado cotidiano: água, limpeza de feridas, amamentação de crianças alheias, vigília. Homens escravizados nas plantações e nas minas sofriam acidentes e castigos tratados de modo mínimo, para preservar o valor de trabalho. Crianças morriam em proporção alta por diarreia, desnutrição e varíola; os números variam por freguesia e são mais seguros onde há registros paroquiais de óbito. Idosos sem família dependiam de asilos religiosos, quando existiam.

Em epidemias, a rotina se quebrava. A febre amarela das décadas de 1850 em diante esvaziou ruas da Corte e atingiu de modo desigual imigrantes recém-chegados e moradores antigos. O cólera das décadas de 1850 e 1860 percorreu portos e rios. A varíola voltava em ondas. Isolamento, queima de objetos e debates sobre cortiço alteravam moradia e trabalho. No sertão, a mesma doença podia ser lida como castigo, quebranto ou febre de estação, com rezas e deslocamento para o sítio de um curador. Essas leituras não são “atraso” automático: são sistemas de causa em contexto de ausência estatal.

Diferenças entre classes sociais

A elite imperial pagava consulta, quarto arejado, viagem a estâncias e, quando podia, tratamento na Europa. Escravizados recebiam, no máximo, a intervenção que o senhor julgava econômica. Libertos pobres pagavam o que restava depois do aluguel. Entre esses polos havia artesãos e funcionários que misturavam botica e promessa. A raça atravessava a classe: um branco pobre e um preto de ofício não enfrentavam o mesmo hospital nem a mesma polícia sanitária.

Mulheres das elites eram objeto de um saber médico sobre nervos e parto, muitas vezes sem autonomia sobre o próprio corpo. Mulheres pobres eram parteiras, amas e doentes de segunda classe. Homens letrados escreviam os relatórios; mulheres e escravizados aparecem neles como problema. A infância rica tinha aia e médico; a infância cativa aparecia nos anúncios de venda e nos livros de óbito. Sem essas diferenças, a palavra “saúde no Império” vira abstração.

Diferenças entre regiões

O Rio de Janeiro e Salvador concentram faculdade, porto e epidemia documentada. O Norte e o Amazonas enfrentavam febres palustres em outro regime ecológico; a borracha, no fim do século, agravou deslocamentos e doença sem criar rede hospitalar equivalente à da Corte. O Nordeste agreste via fome e infecção em ciclos de seca, com socorro tardio. Minas e São Paulo tinham núcleos urbanos com botica e, no caso das fazendas, enfermarias de senhor.

O Sul, com núcleos de imigração alemã e italiana, introduziu hábitos de farmácia e associações de socorro mútuo que não se repetem no sertão baiano. Áreas indígenas e de aldeamento tinham outro estatuto jurídico e sanitário, em geral marcado por epidemia de varíola e sarampo e por recusa ou fragmentação de sistemas próprios de cuidado. Não é possível, com os arquivos hoje reunidos, descrever com a mesma densidade o parto em uma vila do Piauí e o debate da Academia Imperial de Medicina. Esta desigualdade de fontes é parte do quadro, não um detalhe.

Evidências históricas e arqueológicas

Relatórios da Junta Central de Higiene, teses das faculdades, jornais e os livros de Sidney Chalhoub — em especial Cidade febril — são eixos para a Corte. Registros de óbito paroquiais e de irmandades permitem contar, com falhas, causas e idades. Processos e anúncios de jornal documentam doença de cativos. A Casa de Oswaldo Cruz e a Fiocruz reúnem acervos que atravessam o fim do Império e a República. A Hemeroteca Digital guarda debates sobre vacina e epidemia.

O que falta é tanta coisa quanto o que sobra. A voz direta de parteiras e de curadores africanos é rara em primeira pessoa. Plantas e ritos indígenas aparecem filtrados pelo naturalista ou pelo padre. Números de mortalidade infantil fora das capitais são incompletos. Pinturas de interior, como as de Almeida Júnior, documentam atmosfera de instituições e de infância, não o gesto clínico. Este guia não usa ficção nem cinema para completar a cena. Onde o arquivo é silêncio, o texto para.

Mitos e equívocos comuns

Não é verdade que “não havia medicina” no Brasil oitocentista, nem que só existia o curandeiro. Havia faculdade, hospital e botica, acessíveis de forma estreita. Também não é verdade que a medicina diplomada fosse, já então, bacteriologia aplicada: teorias de miasma e hábitos de sangria persistiram. Outro mito é o da recusa popular à vacina como simples ignorância; Chalhoub e a história da varíola mostram desconfiança política, memória de coerção e concepções próprias de doença.

É enganoso fundir cura africana, indígena e sertaneja numa só “medicina tradicional”. São histórias distintas, atravessadas pelo cativeiro e pela missão. Tampouco se deve imaginar o senhor de engenho como benfeitor sanitário: o interesse em manter o trabalhador vivo convivia com o castigo que o adoecia. Por fim, a imagem de um século XIX brasileiro sem epidemia urbana é falsa. Febre amarela, varíola e cólera organizaram medo, reforma e exclusão no coração das cidades.

Glossário

Santa Casa
Irmandade e hospital de caridade que, nas cidades, acolhia doentes pobres, expostos e, em muitos casos, escravizados em estado grave.
Botica
Estabelecimento que preparava e vendia medicamentos, às vezes sob responsabilidade de boticário examinado.
Infeccionismo
Corrente que atribuía doenças a emanações do ambiente — lixo, pântano, cortiço — mais do que ao contágio pessoa a pessoa.
Parteira
Mulher que assistia partos, com saber prático transmitido; no século XIX, objeto de tentativas de regulamentação médica.
Junta de higiene
Órgão oficial que propunha medidas sanitárias, isolamento e normas urbanas, com força variável conforme a política local.
Ama de leite
Mulher, com frequência escravizada ou liberta, contratada ou forçada a amamentar criança de outra família.
Médico de partido
Facultativo contratado por câmara ou particular para atender uma vila, uma fazenda ou um grupo de famílias.

Fontes consultadas

  1. Sidney Chalhoub, Cidade febril (Companhia das Letras) — Consultar referência
  2. Sidney Chalhoub (org.), Artes e ofícios de curar no Brasil (Editora da Unicamp) — Consultar referência
  3. Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz — Consultar referência
  4. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional — Consultar referência
  5. Arquivo Nacional — Consultar referência
  6. Faculdade de Medicina da Bahia: memória institucional (UFBA) — Consultar referência
  7. Acervo da Academia Nacional de Medicina — Consultar referência

Publicado em 20 de julho de 2026. Atualizado em 9 de setembro de 2026.

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