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Como eram as casas na Roma Antiga

Na Roma Antiga não existia um único tipo de casa. Entre o final da República e o Alto Império, o morar dependia da cidade, da renda, do estatuto jurídico e do ofício. Uma família…

Peristilo com colunas e jardim interno da Casa dos Vettii, em Pompeia.
Peristilo da Casa dos Vettii, Pompeia, em gravura de edição de Vitrúvio. Domínio público.

Introdução

Na Roma Antiga não existia um único tipo de casa. Entre o final da República e o Alto Império, o morar dependia da cidade, da renda, do estatuto jurídico e do ofício. Uma família senatorial em uma domus urbana, um aluguel em um andar alto de ínsula e um conjunto rural com lavoura e aposento de senhor obedeciam a lógicas distintas de privacidade, trabalho e exibição.

Boa parte do que se sabe vem de Pompeia e Herculano, soterradas em 79 d.C., e de Óstia, porto de Roma com blocos de apartamentos melhor preservados. Esses sítios não representam o Império inteiro. Casas do Egito romano, da África Proconsular ou da Gália seguem outras plantas e outros materiais. O guia abaixo trata sobretudo da Itália central e deixa claro onde a evidência rarefaz.

Local e período

O recorte principal vai do século II a.C. ao III d.C., quando o átrio e o peristilo se consolidam nas residências abastadas da Campânia e de Roma, e as ínsulas se multiplicam nas metrópoles. Depois das reformas urbanas do século III e das crises do Baixo Império, muitos conjuntos mudam de uso; essa fase posterior não é o centro deste texto.

Contexto histórico

Vitrúvio, no livro VI de De architectura, descreve cômodos segundo o clima, a dignidade do dono e a função social da casa. O tratado é normativo: indica o que um arquiteto deveria fazer, não o que todas as famílias faziam. Mesmo assim, ajuda a entender o vocabulário antigo — átrio, tábliino, triclinium, cubículo — e a ideia de que a casa do homem público servia também como palco de clientela.

Andrew Wallace-Hadrill mostrou que a domus pompeiana organizava um gradiente entre rua e interior: lojas na frente, recepção no átrio, jardim colunado ao fundo. A casa não era um recinto “privado” no sentido moderno. Clientes, escravizados, libertos e vizinhos circulavam por partes dela. Privacidade absoluta era rara e, quando existia, costumava marcar hierarquia, não um direito universal.

A rotina em detalhe

No cotidiano de uma domus abastada, o dia começava cedo. A salutatio reunia dependentes no átrio ou no tábliino. Escravizados acendiam braseiros, buscavam água em fontes ou cisternas e preparavam a primeira refeição. Cozinhas, quando identificáveis, costumam ser espaços reduzidos; muita comida também vinha de tabernas da rua. À noite, o jantar formal podia ocupar um triclinium com leitos, mas isso era hábito de quem tinha recursos e ocasião, não da maioria.

Nas ínsulas de Roma e Óstia, a rotina era outra. O térreo frequentemente abrigava lojas e oficinas. Os andares superiores, mais baratos e mais expostos a incêndio, tinham cômodos menores, menos água encanada e latrinas compartilhadas. Janelas com vidro eram luxo; muitas aberturas usavam persianas de madeira ou simplesmente se fechavam. O fogo doméstico era risco constante: a legislação romana sobre altura e materiais de construção responde, em parte, a esses incêndios.

No campo, a villa rustica misturava moradia do proprietário, depósitos, lagares e alojamento da mão de obra. A arqueologia mostra grande variação: há vilas com mosaicos e termas privadas e estabelecimentos modestos, quase só produtivos. Escravizados rurais dormiam em cubículos coletivos ou em anexos; a evidência de “senzalas” padronizadas é limitada e não deve ser projetada de um sítio a todo o Mediterrâneo.

Diferenças entre classes sociais

Cidadãos ricos, libertos enriquecidos no comércio e elites municipais podiam construir ou reformar domus com peristilo, fontes e pintura de parede. A Casa dos Vettii, em Pompeia, pertenceu a libertos abastados e exibe justamente essa linguagem de prestígio. Já jornaleiros, artesãos e recém-chegados à cidade concentravam-se em aluguéis. Ser livre não garantia casa própria nem cômodo exclusivo.

Mulheres da elite geriam parte da casa e podiam receber visitas em cômodos específicos, mas a documentação literária, escrita sobretudo por homens, subestima sua autoridade cotidiana. Crianças circulavam pelos mesmos espaços dos adultos; quartos “infantis” fixos são difíceis de provar. Escravizados domésticos trabalhavam e muitas vezes dormiam junto ao serviço — cozinha, corredor, loja —, o que tornava a casa um lugar de vigilância e de violência cotidiana, não um refúgio igual para todos os moradores.

Diferenças entre regiões

Em Pompeia, a casa térrea com átrio é frequente. Em Óstia, predominam blocos de vários pavimentos em tijolo. No Egito, papiros e casas de Karanis mostram pátios e tijolo cru. Na África romana, o peristilo e os mosaicos de recepção ganham destaque nas residências urbanas de Tunísia e Argélia. Generalizar “a casa romana” a partir de um único sítio italiano apaga essas diferenças de clima, material e costume local.

Evidências históricas e arqueológicas

As ruínas de Pompeia, Herculano e Óstia permitem medir cômodos, identificar lojas e, em alguns casos, recuperar mobiliário carbonizado. Grafites e altares domésticos (lares) mostram usos religiosos no interior. O Metropolitan Museum of Art e o British Museum reúnem frescoes, utensílios e maquetes que ajudam a ler esses espaços sem tratá-los como cenários prontos.

Textos de Vitrúvio, Plínio, o Jovem, e satíricos como Juvenal descrevem luxo ou miséria com retórica. Devem ser cruzados com a planta baixa. Penelope Allison, ao estudar conjuntos de artefatos pompeianos, mostrou que nomes de cômodos antigos nem sempre coincidem com o uso real: um “cubículo” podia guardar ferramentas, e um átrio podia receber trabalho, não só cerimônia.

Mitos e equívocos comuns

Não é verdade que todo romano vivesse em palácio com mármore e fontes. A imagem da domus monumental descreve uma minoria. Tampouco as ínsulas eram todas cortiços fatais: havia blocos bem construídos, com pátios e água, ao lado de andares precários. A arqueologia de Óstia impede o retrato único de degradação.

Outro equívoco é imaginar a casa antiga como equivalente do lar burguês do século XIX, com sala, quarto e cozinha rígidos. Funções se sobrepunham. Também não se deve ler todo fresco erótico ou todo peristilo como prova de um cotidiano “decadente”: decoração seguia convenções de gênero artístico e de status, não um diário íntimo da família.

Glossário

Domus
Residência urbana térrea, em geral de família abastada, organizada em torno de átrio e, muitas vezes, peristilo.
Ínsula
Bloco de andares com lojas no térreo e cômodos alugados acima, típico de Roma e Óstia.
Átrio
Pátio de entrada, em geral coberto em parte, com abertura (complúvio) e tanque (implúvio) para água da chuva.
Peristilo
Jardim interno cercado de colunas, espaço de sombra, representação e circulação na casa rica.
Tábliino
Cômodo entre o átrio e o interior, usado como arquivo, escritório e lugar de receber clientes.
Villa rustica
Conjunto rural que combina moradia do proprietário, instalações agrícolas e alojamento da mão de obra.
Salutatio
Visita matinal de clientes e dependentes à casa do patrono, parte da vida política urbana.

Fontes consultadas

  1. Vitrúvio. De architectura, livro VI. Roma, século I a.C. (trad. moderna disponível em edições críticas). — Consultar referência
  2. Wallace-Hadrill, Andrew. Houses and Society in Pompeii and Herculaneum. Princeton: Princeton University Press, 1994. — Consultar referência
  3. Allison, Penelope M. Pompeian Households: An Analysis of the Material Culture. Los Angeles: Cotsen Institute of Archaeology, 2004. — Consultar referência
  4. Clarke, John R. The Houses of Roman Italy, 100 B.C.–A.D. 250. Berkeley: University of California Press, 1991. — Consultar referência
  5. British Museum. Life and death in Pompeii and Herculaneum (catálogo da exposição). Londres: British Museum Press, 2013. — Consultar referência
  6. Metropolitan Museum of Art. Roman Housing and Daily Life (ensaios da Heilbrunn Timeline). — Consultar referência

Publicado em 8 de julho de 2026. Atualizado em 9 de setembro de 2026.

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